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No jornal A TARDE em 31/08/2011

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Serviço público:

Cartórios baianos serão privatizados


 

 

Passando por cima do entendimento do Tribunal de Justiça (TJ) e até da ministra do Conselho Nacional de Justiça, Eliana Calmon, que consideram inconstitucional a privatização dos 1.463 cartórios extra-judiciais de uma única vez por ferir o direito do servidor, o projeto-de-lei que trata do assunto foi aprovado por unanimidade, nesta terça-feira, 30, por 60 dos 63 deputados da Assembleia Legislativa. Servidores do Judiciário que lotaram as galerias da Casa comemoraram o resultado da votação.

 Após a sanção do governador Jaques Wagner (PT), os serventuários de cartórios terão 120 dias para optar por continuar como servidores públicos ou migrar para o regime privado. Na prática, a população terá acesso ao serviço privado em 2012 já que o TJ terá quatro meses para arrumar a casa. Isso se não entrar com recurso jurídico, como antecipou a presidente do TJ, Telma Brito.

 O deputado-relator, Zé Raimundo (PT), acredita que “houve avanço e que o serviço, com certeza, vai melhorar”. Já o líder governista, Zé Neto (PT), questionado sobre a ameça do TJ, de buscar recurso jurídico, afirmou que “ter ou não vulnerabilidade jurídica não é fator balizador para votar ou não um projeto dessa dimensão, importante para a população”.

Fundo de Compensação - Até a privatização total, o Judiciário terá de lançar edital de concurso público para os titulares (tabeliães) dos 584 cartórios vagos.  Isso porque, embora parte do setor empresarial, tabeliães prestarão serviço público, o que prevê concurso. O TJ que já havia começado a organizar seleção para preenchimento dessas vagas, mesmo antes da aprovação da lei, precisará adequar os critérios à nova legislação aprovada.

O Judiciário terá, ainda, de enviar, o quanto antes, outros projetos-de-lei ao Legislativo estadual como o que regularizará o inevitável reajuste das taxas cobradas pelos atos, ou seja, as custas (leia abaixo). E outro, fixando o percentual que deverá receber a partir da Taxa de Fiscalização, que será a parte que caberá ao TJ do lucro obtido pelos cartórios.

Em 2010 os cartórios extra-judiciais arrecadaram R$ 138 milhões, segundo o tribunal. O controle dessa arrecadação será feito principalmente pelo selo fiscal, que valida qualquer ato e documento feito pelos cartórios.

A discussão sobre a desigualdade de arrecadação entre cartórios localizados em grandes e pequenos centros urbanos, o que poderia prejudicar estes últimos, foi resolvida, na opinião dos deputados, com a criação do Fundo Especial de Compensação (Fecom). Do lucro obtido pelos cartórios, 23% vai para o Fecom e 2% para a Defensoria Pública, que há anos se queixa de falta de recursos.

O Fecom será administrado por um Conselho Gestor composto por sete integrantes: dois representantes indicados pelo TJ (corregedores), 3 indicados pelos notários, um indicado pelo Sindicato dos servidores do Judiciário e um presidente, que só vota no empate, e que será um secretário administrativo do TJ.
Planserv - Nesta quarta, 31, é a vez da votação do Projeto de Lei que altera o Plano de Saúde dos Servidores Públicos (Planserv) e por isso a categoria continua paralisada. Ainda segundo Dias, as duas questões são de grande interesse dos funcionários do judiciário.

A assessoria de imprensa do Tribunal de Justiça da Bahia não soube informar quantos cartórios paralisaram as atividades nesta terça, mas garantiu que o TJ Express e o Núcleo de Atendimento Judiciário (NAJ), no Shopping Baixa dos Sapateiros, funcionaram.
 

No jornal CORREIO DA BAHIA em 1º/09/2011

 

Ministra Eliana Calmon diz que

projeto aprovado é inconstitucional


 

“Os deputados aprovaram o projeto de privatização dos cartórios à revelia das orientações do Conselho Nacional de Justiça (CNJ). Caso haja  ação na Justiça, a privatização pode ser barrada por completo. Há pontos que  tornam o projeto  inconstitucional”.

Essa é a avaliação da ministra Eliana Calmon, corregedora Nacional de Justiça, sobre o projeto aprovado anteontem por unanimidade pela Assembleia Legislativa da Bahia. Os parlamentares haviam consultado a ministra anteriormente, mas não seguiram as suas recomendações na aprovação da privatização dos cartórios extrajudiciais da Bahia, único estado que ainda tem cartórios públicos.

“Indiquei que os cartórios não poderiam ser privatizados em sua totalidade de uma única vez, pois fere a Constituição. Quem hoje está à frente do cartório ganhou esse direito e não pode perdê-lo antes de morrer ou se aposentar”. Outra incongruência jurídica, segundo a ministra, é o fato do projeto ter colocado num único artigo a privatização dos cartórios vagos (cerca de 400) e dos que estão ocupados.

“Se algum órgão entrar com ação, o Supremo Federal vai barrar todo o projeto de privatização. Pedi que os deputados fizessem artigos separados, já que a privatização dos cartórios vagos era consenso. Eles não me ouviram”.

O deputado Zé Raimundo (PT), relator do processo, diz que não há falhas no projeto. “Respeito a interpretação da ministra, mas a interpretação das leis pode ser variada. Vamos contestar qualquer ação de embargo ao projeto”.


Tribunal

 

A presidente do Tribunal de Justiça da Bahia (TJ), Telma Brito, desejava a privatização de forma paulatina. Ontem, ela  chegou a dizer no pleno do TJ, diante dos desembargadores, que louvava a decisão dos deputados de privatizar os cartórios. Contudo, através de sua assessoria, informou que vai analisar os termos aprovados no projeto com o objetivo de identificar incongruências jurídicas.

“De antemão, o TJ visualiza problemas na manutenção dos pequenos cartórios e, por isso, após a sanção pelo governador Jaques Wagner, o TJ vai estudar a viabilidade da lei aprovada pelos deputados para atestar a constitucionalidade dessa decisão”. A AL informou que o projeto deve ser enviado hoje para o governador, que tem até 15 dias para dar seu parecer.

A presidente do Sindicato dos Servidores do Poder Judiciário do Estado da Bahia (Sinpojud), Maria José Silva, destacou que a privatização é um ganho para os serventuários. “Depois de privatizar, dos 1.789 serventuários lotados nos cartórios extrajudiciais, 966 ficariam a disponibilidade do TJ e 823 titulares de cartórios poderão optar pelo regime privado ou continuar no serviço público”.


Fundos

 

Para tornar atrativos os cartórios menos rentáveis, o projeto criou o Fundo Especial de Compensação com destinação de 23% dos lucros para ser dividido por todos os cartórios e 2% para a defensoria pública.

A defensora pública geral do estado, Célia Padilha, disse que esse recurso somado ao orçamento de  R$ 98 milhões da defensoria trará desenvolvimento para a instituição. “Essa é a melhor parte da privatização”.


Advogados podem concorrer

 

Com a aprovação do projeto, a gestão e a exploração financeira dos cartórios passarão a ser feitas por particulares, que devem ser escolhidos através de concurso público. O relator do processo, deputado Zé Raimundo, explicou que o projeto tem 120 dias para entrar em vigor após sanção do governador.

Pelo projeto, podem concorrer às concessões  para gerir os cartórios bacharéis em direito com diploma e não bacharéis em direito que tenham completado, até a data da primeira publicação do edital do concurso de provas e títulos, 10 anos de exercício em serviço notarial ou de registro.

“Os servidores dos cartórios têm até 31 de dezembro para indicar no TJ se querem ser empreendedores à frente dos cartórios. Caso eles não queiram ficam à disposição do TJ”, destacou o deputado.

Esse é outro ponto que, segundo a ministra Eliana Calmon, está errado. “Para qualquer cargo público é necessário fazer concurso. Não se pode apenas dizer que quer ser empreendedor para ser. Tem que fazer concurso. Isso não pode ser automático”.

O vice-presidente da Ordem dos Advogados do Brasil na Bahia (OAB), Antonio Menezes, não acredita na inconstitucionalidade do projeto. “Alega-se que o projeto fere a Constituição, mas em nenhum momento o projeto tira o direito de quem é concursado recorrer da decisão. Para a OAB, o projeto é constitucional”.

O  TJ informou que no inicio do mês de agosto criou uma comissão para coordenar a realização dos concursos, mas que ainda não tem como informar quando as provas serão realizadas. A OAB defendeu a privatização total dos cartórios, pois abrirá vagas para o mercado de trabalho para advogados.